O peso da magreza

Pressionados pelo ideal do corpo perfeito, adolescentes adotam comportamentos alimentares restritivos que podem levá-los a graves quadros de anorexia e bulimia


Se por um lado vivenciamos um período de aumento nos índices de obesidade, por outro, o culto à magreza tem levado cada vez mais jovens a desenvolver comportamentos de risco para o controle do peso. Para Marcela Kotait, nutricionista do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), a questão é um problema de saúde pública. “Pessoas com peso normal são consideradas gordinhas e aquelas abaixo do peso saudável são tidas como padrão.”

A busca da magreza excessiva tem aumentado a incidência de transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia. Os distúrbios costumam se iniciar na adolescência e se desenvolvem, sobretudo, devido à cobrança social por um “corpo perfeito”. Além disso, sabe-se que essas doenças são causadas pela interação entre fatores genéticos, psicossociais e socioculturais.

Conforme explica a nutricionista, a anorexia se caracteriza pelo grande temor em ganhar peso, acompanhado de uma dieta rígida de restrição alimentar. “Já a bulimia é caracterizada por episódios em que a pessoa come exageradamente e depois faz uso de métodos compensatórios inadequados, seja tomando laxantes e diuréticos ou provocando o vômito”, revela. Nas duas situações, a autoimagem do paciente é distorcida: mesmo estando muito magros, eles acham que estão acima do peso.

Segundo uma estimativa do Journal of Adolescent Health Care, dos EUA, os transtornos alimentares ocupam a posição de terceira doença crônica mais comum em adolescentes do sexo feminino no mundo. Estudos internacionais apontam que a incidência de anorexia é de 0,5% em mulheres jovens e de 0,05% entre os homens. Já a bulimia nervosa acomete cerca de 5% dos indivíduos do sexo feminino.

No Brasil são escassos os estudos sobre o tema. Apesar disso, as experiências cotidianas dos nutricionistas ajudam a compreender a emergência da situação. “Dados da prática clínica indicam que os números estão crescendo, tanto entre homens quanto em mulheres.

Pessoas com transtornos alimentares podem viver anos sem serem diagnosticadas, por isso, muitas vezes as taxas observadas nos estudos não correspondem à realidade”, conta Ana Carolina Costa, nutricionista e autora do blog O corpo é meu.

Um dos primeiros sinais de alerta pode estar no hábito de fazer dietas. De acordo com Marcela, dietas moderadas aumentam em cinco vezes o risco de desenvolvimento de algum transtorno alimentar. Com dietas restritivas, o risco é 18 vezes maior. “As meninas são mais propensas a desenvolver esses distúrbios devido à cobrança maior que sofrem, mas isso não exclui os meninos”, diz.

Dentro da escola
“Eu pulo algumas refeições durante o dia.” “Não estou satisfeita com meu peso.” Segundo Karin Louise Lenz Dunker, nutricionista do Programa de Atenção aos Transtornos Alimentares, do departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), essas são algumas das declarações mais comuns de adolescentes de escolas de São Paulo. Como parte de seu projeto de pós-doutorado, Karin desenvolve um programa de prevenção de transtornos alimentares e obesidade em unidades públicas da cidade, onde trabalha com meninas entre 12 e 14 anos.

As atividades desenvolvidas são baseadas no programa New Moves, projeto da Universidade de Minnesota (EUA). Após ser aplicado em escolas secundárias da região, o programa foi responsável por diminuir o sedentarismo, melhorar o padrão de alimentação, diminuir comportamentos não saudáveis para controle de peso e melhorar a autoimagem corporal das adolescentes.

O programa, adaptado por Karin e colaboradores, está sendo aplicado inicialmente na Escola Estadual Oscar Thompson, na região central da cidade de São Paulo. A unidade atende cerca de 570 alunos do 5º ao 9º ano do fundamental.

O programa é realizado na escola desde o início de setembro, nas quartas e sextas-feiras, após o período de aulas. As alunas interessadas voltam à escola para participar de atividades orientadas por profissionais da saúde, como nutricionistas, educadores físicos e psicólogos. São duas horas por dia, sendo uma para suporte social ou conteúdos de nutrição e outra para educação física. Além disso, as meninas participam de sessões particulares com psicólogos. O projeto será retomado no começo de 2014, quando haverá uma fase de manutenção dos hábitos.

Segundo a nutricionista, o programa busca estimular o aumento da atividade física, diminuir o tempo em frente à televisão e ao computador, reforçar a importância de tomar café da manhã, estimular o consumo de frutas e vegetais e diminuir o de refrigerantes. “Também buscamos reforçar as características positivas das adolescentes e diminuir o foco exclusivo na aparência”, conta.

Toda semana, os pais recebem um folheto com informações sobre o que foi discutido no programa. Além disso, a equipe orienta os responsáveis sobre as atitudes que podem auxiliar as adolescentes.

“Muitos pais chamam o filho de gordinho, mas esse comportamento é prejudicial. O ideal é que eles saibam valorizar outras características do jovem, que não sejam relacionadas ao físico. Eles podem elogiar a inteligência, habilidades…”

O projeto só trabalha com garotas, pois, segundo a nutricionista, já foi comprovado que grupos de prevenção com os dois sexos não são eficazes. “Muitas vezes os meninos atrapalham, pois não estão preocupados com os temas propostos e as garotas podem ficar inibidas em expressar suas preocupações na frente deles.” Outro ponto importante é que os profissionais não descrevam o que são os transtornos alimentares, já que isso pode incentivar as adolescentes a adotarem os comportamentos prejudiciais. A expectativa é aplicar o programa em mais escolas públicas da cidade.

Como ajudar
Para as nutricionistas consultadas, os professores devem prestar atenção a comportamentos de seus alunos que possam indicar o surgimento de algum transtorno alimentar. “É importante ficar atento a mudanças de peso abruptas, fraquezas, mal-estar e tonturas frequentes. Tudo isso surge como complicações da baixa ingestão calórica”, diz Marcela.

Ana Carolina aponta outros sinais de perigo que podem ser observados em sala de aula: “perfeccionismo extremo, dificuldades cognitivas e na interação social com colegas, isolamento na hora do recreio, idas frequentes ao banheiro, especialmente depois de ter comido são indícios de que algo pode não estar bem. O professor também pode ficar atento a estudantes que evitam comer na frente dos demais e fazem comentários depreciativos sobre seu peso e corpo.”

Na aula, a nutricionista aconselha que os docentes valorizem os jovens e não permitam brincadeiras ou comentários negativos sobre o peso e o corpo de colegas. Durante as aulas de educação física, os educadores podem ficar atentos ao momento de avaliar o peso e estatura dos adolescentes. Além disso, Karin destaca os temas que podem ser trazidos para discussão, como as variações normais no peso e forma, os padrões culturais de beleza e as vantagens de uma alimentação balanceada e adequada.

Em caso de comportamento suspeito, Ana Carolina recomenda que seja feita uma reunião com os pais, explicando as razões de sua preocupação. E Marcela lembra: “o ideal é agir de maneira empática e de não julgamento. Trabalhar com a autoestima do aluno é essencial”.

O que fazer:
– Fique de olhos em sinais como perda de peso, perfeccionismo, dificuldades cognitivas, isolamento e idas frequentes ao banheiro após as refeições;– Alunos que evitam comer em público e fazem comentários depreciativos sobre seu peso e corpo;

– Caso necessário, entre em contato com a família e exponha sua preocupação. É importante que o jovem tenha conhecimento e participe da conversa;

– Falar sobre anorexia ou bulimia ou mesmo recomendar trabalhos sobre o tema não ajuda. Pesquisas comprovaram que conhecer os sintomas pode agravar o quadro de adolescentes em risco;

– Prefira falar sobre uma alimentação saudável e variada, os diferentes formatos corporais, as mudanças no corpo durante a puberdade e a importância da atividade física.

Fonte: revistaescolapublica.uol.com.br

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